top of page

Do centro cirúrgico ao artigo científico: por que o cirurgião oncológico precisa produzir ciência

  • 17 de jun.
  • 3 min de leitura

O cirurgião oncológico precisa também entender biologia tumoral, interpretar evidências, discutir estratégias terapêuticas e participar da produção do conhecimento que vai interferir na definição e evolução de métodos diagnósticos e protocolos de tratamentos futuros.


Dr. Samuel Aguiar

Existe uma visão ultrapassada de que o papel do cirurgião termina na sala de operação. Sim, milhares de cirurgias realizadas, milhares de pacientes tratados são um diferencial preciosíssimo, que só décadas de experiência acumulada proporcionam. Mas na oncologia moderna, o cirurgião precisa também entender biologia tumoral, interpretar evidências, discutir estratégias terapêuticas e participar da produção do conhecimento que vai interferir na definição e evolução de métodos diagnósticos e protocolos de tratamentos futuros.


Quem apenas reproduz condutas inevitavelmente vai depender da interpretação e diretrizes estabelecidas por outros, muitas vezes pesquisadores que não tem a vivência da assistência, da linha de frente com o paciente. Já o médico cirurgião que está no centro da ciência participa da construção das respostas. E isso realmente traz uma mudança de cenário quando olhamos para a saúde de forma global.


A cirurgia oncológica mudou profundamente nas últimas décadas. Hoje, grande parte das decisões mais importantes não está relacionada apenas à execução técnica da cirurgia (que, aliás, é um pré-requisito obrigatório), mas à avaliação das condições particulares de cada paciente, do momento certo para a indicação cirúrgica, da técnica e tecnologia mais adequada a cada caso, da integração com as terapias sistêmicas, do conhecimento sobre perfil molecular do tumor e, não menos importante, da discussão multidisciplinar global.

Especialmente em áreas como câncer colorretal avançado, sarcomas e tumores raros, não existe espaço para decisões baseadas apenas em experiência individual ou apenas em protocolos tradicionais engessados, mas a conduta precisa ser baseada em evidências cientificas que são construídas continuamente.


O conceito de surgeon-scientist vem sendo discutido já há anos nos principais centros de referência do mundo porque existe uma vantagem clara no cirurgião que realiza pesquisas. Ele acompanha o comportamento tumoral, a resposta terapêutica, observa recorrência, complicações, falhas de tratamento e os impactos clínicos das decisões tomadas, a partir de análises estatísticas de seus próprios bancos de dados. E é justamente dessa observação que surgem perguntas relevantes. Ele consegue traduzir de forma prática as perguntas clínicas do centro cirúrgico em investigações científicas.


Boa parte da evolução da cirurgia oncológica se desenvolveu dessa forma. Estratégias de preservação de órgão, critérios de ressecabilidade e margem cirúrgica, novas tecnologias, tratamento multimodal de doença metastática, protocolos perioperatórios e refinamento das indicações cirúrgicas tiveram como o resultado comprovados de estudos científicos.


Além disso, o cirurgião que participa de pesquisa translacional também tende a desenvolver uma visão mais crítica sobre a indicação cirúrgica, prognóstico, desfecho e resultado do tratamento. Produzir ciência obriga o cirurgião a medir resultado.


Em oncologia, existe uma diferença grande entre realizar uma cirurgia tecnicamente possível e indicar uma cirurgia que vai trazer o melhor prognóstico. Recorrência, margem cirúrgica, complicação, sobrevida, funcionalidade e qualidade de vida precisam ser analisadas continuamente.


Produzir ciência também tem impacto direto na formação médica. Ensinar força atualização constante. Obriga discussão crítica da literatura, revisão de condutas e aprofundamento técnico. Um ambiente acadêmico forte melhora a qualidade da assistência porque cria cultura de análise, questionamento e evolução contínua. Por isso, grandes centros oncológicos do mundo integram assistência, pesquisa e ensino.


O cirurgião oncológico que produz ciência tem a oportunidade de participar da evolução da própria especialidade, ajudando a definir protocolos e a gerar evidências, validando estratégias e construindo conhecimento aplicável à assistência do paciente.


Quem trata o câncer, essa doença tão complexa, precisa ter como missão também transformar a experiência clínica em conhecimento científico aplicável.


logo-dr-samuel-horizontal-branco.png
  • Instagram
  • Facebook
  • LinkedIn

Médico responsável: Dr. Samuel Aguiar - CRM/SP  84495  //  RQE 43422

Copyright ©Dr. Samuel Aguiar 

bottom of page